Em 2016, a sonda Cassini começava seu processo de “suicídio” depois de vinte anos de ótimos serviços e do fim de seu combustível. Um mergulho mortal definitivo em direção ao mistério do espaço, no fim de uma missão exitosa que principalmente vasculhou e estudou o gigante Saturno, seus anéis e suas luas, com um grau de informação avassalador.

Uma morte briosa e não sem antes brindar os humanos com um show de imagens dessas de beleza sublime, que deveriam ser destaques em qualquer noticiário ou em qualquer escola nesse nosso planetinha azul e simpático.

Confesso que naquele momento adoraria ter vivido de fato esse show com mais afinco, curtido mesmo, desfrutado diariamente das imagens deleitosas que o equipamento começava a transmitir antes de seu anunciado fim. …


um bonde sinistro plantou pesado e saiu quebrando geral. juntou facções, prometeu, juntou com os cana, trouxe uns pastor, mulão de miliça trepado e por aí. levaram tudo, firmaram a banca.

e aí o careca colou com esse bonde e meio sem querer acabou virando o frente da situação, da boca mais chavosa. levou a parada de um jeito que nem sabia, aproveitando a onda forte e num cochilo da contenção.

já chegou com marra de cão e mandou: agora é o terror, família. agora é só mirando na cabecinha e quem não fechar com nós é vala.

a boca é servida no errejota e a prata é forte. normal maluco noiar mermo. …


Não tem a menor coerência desejar feliz dia das crianças e apoiar o bolsonarismo, mesmo sabendo que coerência não chega a ser uma preocupação pra essa galera. No máximo poderiam desejar um feliz dia de algumas crianças. É duro, mas é isso.

Para a maior parte das crianças do país essa gente dá é um grande foda-se, sem nem mais se sentir constrangida por isso, como há uns anos. Agora é de boas. É meritocracia mesmo, feliz dia das minhas crianças e o resto que se foda. A ideologia do individualismo e da morte.

Ter milhões de crianças sem o que comer não é sequer assunto. Tem criança quebrando pedras, morrendo intoxicadas em carvoarias, morrendo de doenças do século dezenove? Foda-se, não são da minha família. Viva a família. Sim, senhor presidente, em nome da família eu voto sim. …


Até a meiúca dos anos noventa muitas rádios ainda se alimentavam basicamente de discos cedidos por gravadoras e havia um dia na semana que a EMI recebia programadores de rádios de todo o Rio pra distribuir CDs promocionais com as músicas de trabalho dos artistas do cast, além de material de divulgação.

Na Quarup FM esse era um trabalho que eu fazia questão de fazer pessoalmente porque era muito maneiro e sempre pintava coisa boa em meio às farofas de sempre. A Emi funcionava na Muniz Barreto, em Botafogo. Encontrava sempre uma galera alucinada de rádio por lá, muito assunto, muita zoeira e informação e o maluco que fazia a distribuição parecia que ia com minha cara, pois sempre arrumava umas coisas mais alternativas que não iam pra todos. Posso dizer também que a mossa rádio tinha uma certa “faminha” em alguns segmentos, principalmente por estarmos sempre aparecendo nas colunas do Tom Leão e do Calbuque, no Segundo Caderno do Globo, na época um caderno bastante considerado. Sim, principalmente por conta do Os Argonautas, tocado por Carlos Eduardo Lima e Leonardo Salomão, que pautava uma boa parte da mídia que estava escrevendo música alternativa naquele momento (sei que parece exagero dizer assim, mas era isso mesmo). E o Programa de Índio, do Reginaldo Ferreira, figura que é central nesse texto aqui. …


Janeiro aqui na cidade, meu chapa, é de cozinhar os miolos, sem massagem. E foi num dia assim, desses bem infernais, descendo a Brigadeiro, que vi o empreendedor no asfalto quente.

“Tá lá o corpo estendido no chão”, diz aquela música de Blanc e Bosco que é uma crônica impressionante da vida surreal nas cidades do país, e foi a primeira coisa que me veio à mente quando vi a cena ainda de longe. Felizmente, diferente da música, o corpo não tinha perdido a vida, apenas repousava no chão ladeado por curiosos e um guarda que tentava alguma solução pra aquele episódio estragador de seu dia. …


Muita coisa boa rolou no papo de abertura do Festival Moacir Santos, acontecido no último domingo e que está disponível no youtube: a própria obra do Moacir, a poesia e a sabedoria do mestre Nei Lopes, o talento especial de Andreia Ernest Dias na condução da conversa, o clima, a quantidade de informação. Mas uma coisa que me fez vibrar uma camada a mais ainda foi ver a participação da jovem Samara Líbano, tocando uma música do Maestro ao violão no começo da transmissão.

Lembro da Samara ainda criança, semblante compenetrado. Pra quem atua no segmento cultural andando pela Baixada Fluminense há tanto tempo, ver a Samara tocando faz revolver várias camadas de emoção. Cria da AMC, uma escola de música incrível em Vilar dos Teles, São João de Meriti, ela chegou por lá pequena e já mandava sinais fortes de que se destacaria na cena musical do Rio pela seriedade com que encarava e desbravava o violão. …


em tempo: mouro e dalanhól se fossem estadunidenses estariam agora presos e processados por alta traição, um crime que lá na matriz dá pena de morte. que, aliás, é a acusação que tentam imputar ao julian assange e o edgar snowden, pra ver como lá o troço é barra pesada isso. alta traição…

mas, né, quem ia imaginar que a lava-jato foi montada com supervisão do fbi e do departamento de justiça dos eua né? quem ia ter a imaginação paranoica pra dizer que um juizeco de primeira instância ia ter tanto poder a ponto de destruir a engenharia brasileira e devolver o país ao papel de capacho norteamericano? …


Final de junho de 2020 e ao que tudo indica o haitiano profeta que veio do futuro tinha razão: bolsonaro acabou. O cerco do STF, a continuidade do andamento dos vários inquéritos contra os filhos, o fracasso total na gestão da máquina pública, o derretimento de boa parte de seu apoio popular, o fator Queiróz e sua ligação com as milícias do Rio, a atitude criminosa em relação à pandemia, são muitos os fatores que vão antecipar a saída do sujeito do Planalto, por mais blefes de macheza que ele e seus pares ainda esbravejem por aí. …


Hoje, 28 de abril, a Estação Primeira de Mangueira completa noventa e dois anos de vida e só penso aqui que todo mundo tinha que conhecer pelo menos um pouquinho essa história incrível. Na verdade, todo mundo deveria conhecer era um poucão da história do Carnaval das escolas de samba, daquela gênese altamente inventiva no começo do século passado e que ainda dá pra perceber seus traços mais fortes em escolas como a Portela, o Império Serrano e a Mangueira, onde essa presença ainda é marcante ao extremo. Na Estação Primeira então… “Mangueira é um canto de fé, que leva o samba na poeira e no pé”.
São muitas as referências da verde e rosa na minha vida nesses anos dessa indústria vital, referências que espalham coisas muito mais do que o assunto Carnaval. Aproveito a efeméride e dedico aqui uns minutos pra lembrar algumas dessas coisas, como uma forma de fazer uma homenagem, pequena mas sincera, a essa bonita jornada.
A primeira referência que me vem à mente tem um gosto especial de lembrança boa, por vários motivos. É que minha mãe em um momento da vida se apaixonou por um moleque da Mangueira, bem mais novo que ela, com quem teve dois filhos, e que conviveu com a gente um tempo lá em casa. O Teba era uma figura, erudito, de fala empolada, um cara gente boa que, não fosse um desses transtornos tipo bipolaridade, borderline ou coisa assim, seria uma pessoa ótima de conviver no dia a dia.
Apesar de termos uma relação dessas bem conflituosas entre enteados e padrastos, um dia o sujeito me convidou pra ir com ele lá no alto do Morro, onde ele tinha um barraco e onde uma parte de sua família ainda morava.
Já vai aí uma pá considerável de anos, mas algumas lembranças desse dia ainda viveram bem nítidas na lembrança durante anos e algumas ainda existem bem firmes até hoje.
Com quinze anos, além de ler muito, eu já era envolvido com política, com grêmio, e já tinha conhecido algumas favelas por conta da militância, principalmente a Vila Ideal onde o amigo Gordo coordenava o núcleo do PT de lá. Mas nada se comparava ao que vi adentrando a Mangueira, subindo pelo famoso Buraco Quente.
Nunca gostei de romantizar a pobreza, mas ali tinha uma coisa que de fato só me dei conta muitos anos depois, que é uma certa aura de dignidade que existe em algumas pessoas independente das circunstâncias materiais. Como o Teba era um cara bem conceituado no morro, acabei trocando ideias com muita gente lá e essa impressão ainda sem nome ficou marcada em mim com força. O acolhimento, o bom humor, a comida, as zoações, a chuva de “bom dia, abença, deus-te-abençoe” que se ouvia em todo o canto.
As imagens também imprimiam forte na mente. As vielas, os pontos com esgoto escorrendo, as pessoas conversando na porta das casas, muita criança, o cheiro do café, a arquitetura mirabolante de alguns dos barracos. Lembro de ver alguns bandidos em alguns lugares da parte de baixo, sem ostentação, numa época em que o fuzil ainda não era o padrão de armamento das favelas.
Lembro que toda hora vinha à mente o famoso samba chicletoso do Zuzuca e ali descobri que não existia um lugar chamado Tengo-Tengo, mas que existia Santo Antônio e que o Chalé era lá no pico da colina e era onde morava a “fina-flor do bom-viver”, nas palavras do Teba, numa tradução bem boa do conceito de malandragem como os compositores do samba definiam.
Era o ano de 1988 e a Mangueira se preparava pra botar na Avenida um enredo sobre os cem anos da Lei Áurea, com um samba que ia marcar a história e que na época eu não tinha a menor ideia da amplitude disso.
Essa visita durou manhã, tarde e um pedaço da noite e desse dia em diante a Mangueira sempre me remeteu a algo bem maior do que uma escola de samba. Demorei anos pra entender e processar aquela visita. Na verdade todo cara com quinze anos é meio prego de certa forma e além disso a marra de adolescente te põe um véu de achar que se sabe tudo, que já entendeu tudo antes que te expliquem. Com o tempo percebi como perdi tanta coisa rica que eu poderia ter processado daquele contato. Mas o principal acho que ficou e marcou minha alma indelevelmente.
Uma outra vez estava no “esquenta” da Mangueira antes de um desfile no Sambódromo e me lembro a emoção da chamada da bateria e do discurso de alguém (que a memória falha, mas que devia ser alguém da diretoria) falando de como a Mangueira era uma nação e de que como foi importante pra luta política pela democracia, acolhendo e acoitando vários perseguidos pela ditadura. Parêntesis: todo mundo devia um dia ir à concentração de um desfile de escola de samba, nos minutos do esquenta — fecha parêntesis. Nesse dia eu chorei muito e me lembrei daquela visita da adolescência e pra mim se completou o sentido definitivo de uma frase que certa feita vi o mestre Rubem Confete dizer: “ a Mangueira é um quilombo”.
Com o tempo também fui anotando as profundas ligações afetivas da Mangueira com minha cidade, Duque de Caxias e isso foi e é muito legal de saber. Aliás, pesquisas que um dia serão publicadas de forma mais detalhada e que dão conta da aproximação carinhosa da Velha Guarda verde e rosa com a cidade.
A começar pelo grande Hélio Cabral que além de ser o mais conhecido membro da lendária escola de samba Cartolinhas de Caxias também teve destaque na Mangueira, sendo, por exemplo, possuidor da carteirinha de número 16 da histórica Ala de Compositores da agremiação. Aliás, é de autoria de Pelado, Padeirinho e Preto Rico, trio peso-pesado de mestres da composição desta ala, o primeiro samba do Bloco de Enredo Império do Gramacho, fundado em 1972, em Caxias. Aliás, o Império foi batizado pela Mangueira, em 1975, feito lembrado pelos baluartes do Bloco, hoje presidido por Emílio Reis, neto de Seu Clodomiro de Oliveira, bamba bastante considerado no metiê do universo sambista do Rio.
Lembro do amigo Cezar Moutinho, o Índio da Mangueira, um dos passistas mais famosos do país, figura carimbada no Carnaval do Rio. Lembro da Squel, caxiense, esbarrando com ela pelas ruas da cidade, já menina porta-bandeira, de corpo-alma denunciando no andar aquela certa altivez que vem de um reconhecimento de sua ancestralidade marcante. Aliás, depois lembro dela já brilhando na Grande Rio, e um dia, na Sociedade Musical e Artística Lira de Ouro, em evento do amigo Neném Kantão, homenagem ao mestre Xangô da Mangueira, descubro que Squel é neta do hômi, grande destaque do mítico panteão mangueirense.
E o que dizer do desfile da Mangueira na Sapucaí em 2019, A História que a História Não Conta? Lembro no desfile das campeãs a comoção, uma bandeira gigante com o rosto da Marielle no setor um, o desfile arrebatador, o samba cantado a pulmões a ponto de explodirem, uma velhinha do nosso lado chorando e rindo, chorando e rindo sem parar, a gente vendo o povo pressionando o cordão dos seguranças ao final do desfile e invadindo a pista e seguindo com a Mangueira, tal como em 1984, milhares de pessoas até quase sete da manhã, até a bateria parar de bater já exausta pela quantidade de horas, o dia amanhecido, o Brasil dos poderosos expurgado, a alma lavada, as trocas cúmplices de olhares. A Mangueira nesse dia vingou o povo da melhor forma que sabe fazer: com música e verdade na veia. O Brasil popular profundo, a História de um país massacrado mas que não se entrega.
Pra fechar um comentário sobre Educação. Além de achar que se devia estudar a Mangueira em escola básica, penso que dariam ótimas aulas de literatura estudando os sambas do Cartola e os poemas do Carlos Cachaça, este um bamba da poesia a quem Aldir Blanc e Moacyr Luz chamaram de gênio da raça em um lindo samba. Dois intelectuais populares dos mais fecundos e que não devem nada em profundidade literária a vários autores canônicos que habitam as grades curriculares oficiais. Mas talvez ter dois poetas eruditos populares com os nomes de Cartola e Cachaça não seja de bom tom, né? Sei lá, só pensando aqui.
No mais é isso: parabéns à Estação Primeira de Mangueira e a essa história que vem sendo contada há 92 anos (ou serão 520?) com muita garra e afeto. Raiz é parada forte. …


O tratamento midiático de dois episódios ocorridos em 2015 foram cruciais para minha triste constatação de que há algo de muito doente de verdade nas vísceras do país. Um deles foi o fechamento de uma lanchonete em Parada de Lucas, no Rio de Janeiro, por ser acusada de cometer dois crimes: vender carne de pombo em vez de carne de frango e promover trabalho escravo no estabelecimento. Lembro bem da indignação pública, dessas que duram vinte quatro horas e depois morrem sem nem se despedir. Um absurdo, como podem ter coragem pra isso, meu-deus, aonde já se viu vender carne de pombo em lugar de frango, malditos chineses, tem que fechar essa merda, cadê a justiça. Lembro também das zoadas nos programas de rádio e de TV, dos comentários na internet, nas filas de ônibus e nos bares. O pombo por frango, o gato por lebre. Mas sobre a acusação de trabalho escravo… Nada. Silêncio total. Esse crime passou batido, sequer merecedor de um meme ou algo que valha. Ah, trabalho escravo né, normal, segue a vida.
Depois foi o caso de uma criança indígena degolada nos braços da mãe, em Santa Catarina. Li numa pequenina nota em um jornal enquanto esperava pra cortar o cabelo. Lembro do choro que me veio, lembro dos segundos em que pensei que talvez as pessoas não tivessem entendido a palavra degolar, que é matar alguém cortando a garganta, sei lá, ingenuidade, não sei, mas o fato é que essa notícia que deveria paralisar o país surgiu como apenas mais um fato corriqueiro desses como um roubo de galinha, uma contratação de um jogador em um clube de terceira divisão, o novo namoro de uma subcelebridade, algo assim…
Sempre desconfiei disso, mas nesse ano me veio com uma nitidez incômoda e avassaladora a constatação de que há uma doença no país da qual nunca tratamos e que com o passar dos anos vai aumentando perigosamente rumo a uma metástase imprevisível. Uma ferida lancinante.
Há uma porção de gente no país que tolera coisas que deveriam ser intoleráveis. Para uma parcela grande da sociedade brasileira o assassinato de cinquenta mil jovens por ano não tem muita importância, não é sequer um assunto. Pelo contrário, cresceu absurdamente o número de gente que acha que é isso mesmo. Tem que matar. Gente que comemora Natal, fala de Jesus, mas aprova a tortura; que deseja feliz dias das crianças mas acha de boa a infância brasileira morrendo em carvoarias, quebrando pedras, vendendo o corpo, sem perspectivas de futuro.
Existe uma parcela do país que é desumana e rumina seu egoísmo enquanto vomita as virtudes de uma dita meritocracia mascaradora e violenta. Gente que fecha os olhos para a realidade de que a cocaína que movimenta milhões de dólares é financiada por sorridentes senadores, pastores picaretas e agentes do poder público — mas acham que é preciso mesmo metralhar as favelas. Um reduto de bandidos, vociferam essas pessoas que dizem ser contra a corrupção desde que hipocritamente não mexam com a corrupção delas.
“Calma, sua tia não é fascista…”, começava um texto que circulou muito na última campanha eleitoral. Olha, sei não… Talvez seja o caso de pensar na possibilidade de sua tia ser fascista, sim; tem muita chance de que aquele teu tio taxista fosse um dos que aplaudiriam Hitler queimando judeus em campos de concentração ou que comprariam pipoca pra ver com prazer as fogueiras da ku-klux-klan. É hora de admitir que há de fato um número grande de gente que tem o fascismo escondido de boa lá dentro do ser — e que agora, dada as condições, têm colocado ele pra fora, sem culpa e com entusiasmo até.
O país tem muitas mazelas, de vários matizes, mas é preciso admitir que há uma doença que não foi tratada e que agora tem ganhado força, uma espécie de câncer social que nos ameaça perigosamente, alimentado pelas máquinas de ódio movidas pelo junção dos interesses do grande capital com o nosso passado violentamente colonial. Uma combinação doentia e adoecedora, uma fábrica de gente perversa, mesquinha, limpinha e que compartilha fotos de bichinhos fofos, mensagens motivacionais e putaria pesada em aplicativos, sem nem pensar muito.
E essa doença deu pra sentir com força na eleição passada, onde a onda que rolou não teve nada a ver com lógica. E sim com essa doença social mesmo. Potencializada exponencialmente pela demonização do PT e pela máquina do watizape bancada com caixa dois. Tudo bem, é verdade, mas ainda sim, o irracional é que foi o ponto. A máquina do ódio apenas insuflou o que já existia por baixo do pano, por dentro das piadas, em silêncios, em aplausos, em linchamentos, em votos.
“Ah, mas o Lula…”, “Ah, mas se o Ciro…”, “Ah, mas a Marina…”, não, gente. Não teve a ver com lógica. Foi o grande momento da doença manifestada no país; vitaminada e estimulada por uma estratégia sórdida e eficiente, óbvio, mas era o momento. Lembro de muita gente que vi na campanha se desesperando pra explicar coisas óbvias e nada funcionando. Mulher tem que apanhar, tem que ganhar menos mesmo, fraquejada — e teve um monte de mulher votando com convicção. Não servem nem pra procriar, deus me livre filho meu casar com uma negra — e teve um monte de negro defensor do cara. Gente pai de filhos com necessidades especiais, gente que trabalha com saúde pública, uma porrada de professores. Parei naquele momento quando vi pais-de-santo defendendo o indefensável. Putz.
Vamos ser honestos com a gente mesmo: não era um momento de razão, lógica, ética. Era a doença em seu grau máximo e seu contágio avassalador. A ferida nunca tratada, agora exposta com toda a sua repugnância.
Às vezes tento imaginar o grau insuportável de violência numa vitória do Haddad, por exemplo: a horda de pitboys violentos, milicianos donos de currais eleitorais, imprensa golpista, sabotagens, histeria paneleira, o inferno que seria.
É horrível pensar isso, mas pode ser que a gente precisasse mesmo passar por essa tragédia eleita. Eu sei, eu sei: é horrível pensar isso. É horrível pensar isso porque sabemos o custo dessa aventura insana em termos de soberania nacional, em quantidade de baixas que estamos tendo e teremos, nos danos para as políticas públicas sociais, na quantidade de mortos a mais em nossa tragédia diária.
Mas também fica uma fresta de possibilidade de pensar que esse momento de baixa seja uma oportunidade para purgar o máximo que der dessa nossa chaga nacional que é a apatia, e em vários casos, a conivência tácita com nossa barbárie. As décadas de pano passado pra desigualdade social, pro racismo estrutural, pra violência contra os mais pobres, pro extermínio dos povos originários, pro assassinato da diversidade, pros chicoteamentos, pra truculência do latifúndio. Essa metralhadora de merda, esse rodízio de tapa na cara, vai que pode ser uma chance de construção, ou reconstrução sei lá, de algo, não sei bem ao certo. Que ajude a fortalecer a imensa parte do país que é aquilo de mais humano, criativo, vibrante, espiritual e espirituoso do povo brasileiro.
A ferida é feia e grande e a quantidade de pus é proporcional. E o pus tem mesmo um aspecto repugnante. Resta saber se essa ferida ainda pode ser tratada ou uma gangrena das brabas pode nos levar ainda a indesejáveis extremos.
Vamos precisar de muita respiração, ação e comunicação. Enquanto isso, o recomendável é se cuidar e cuidar de quem está próximo de você. …

Heraldo HB

animador cultural, cineclubista, produtor audiovisual. www.relinkare.org

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